sexta-feira, 20 de março de 2009



É só a febre...!



O telefone tocou. Ele atendeu. Ela não dizia nada. Ele podia ouvir a respiração dela do outro lado. Algo estava errado. Fazia tempo desde a última vez em que ouviu a voz dela, parecia estar tudo bem. Ela SEMPRE estava bem e isso impressionava até seus amigos mais próximos. Mas dessa vez ele sabia que ela não estava nada bem."Acho que é a febre, sabe!? Acho que estou sempre em estado febrio" eram as primeiras palavras do telefonema, nenhum "alô" ou o famoso "oi, tudo bem?". Ela continuou:"Quanto mais eu ando pela cidade, mais eu sinto o suor, mesmo hoje com 12°C, eu sinto calor. Deve ser alguma coisa.""O que aconteceu? Você está bem?" ele tenta acalmá-la, finge um real interesse que nem ele sabia que estava lá."Sabe, eu queria ser como você. Não se importar com tanta coisa que acontece no mundo, levar uma vida 'simples', não pensar tanto como eu penso, ou pelo menos nas coisas que eu penso. Queria ter como única preocupação meu emprego ou minha vida emocional, mas não dá.""Calma", ele insistia, já se sentindo angustiado pelo tom da conversa. Ele se lembra desse tipo de conversa e sabe exatamente onde aquilo acaba levando. "Você quer que te encontre pra gente conversar"?"Não. Eu já tentei conversar. Não adianta. Não posso te aborrecer mais. Você precisa se livrar desse fantasma, precisa estourar essa bolha de mágoa, lágrimas e confusões. Essa rotina, essa eterna melancolia.""Olha, eu tô fazendo o meu melhor. Mas a vida é foda". Ela sabia o quanto estava fazendo e sabia que não era o seu melhor."Bom, eu sei que você consegue ser feliz. Acredite. E nunca se esqueça: eu te amo. Sempre te amei, não dá pra não te amar. Você é muito bobo pra não ser amado. Mas você precisa me esquecer. Adeus".Ele continua na linha, ouve um silêncio, não consegue escolher as palavras certas. Pensa. Pensa. Pensa denovo. Abre a boca. Então um estampido do outro lado da linha."Meu deus. Alô... Alô... Não..."O telefone do outro lado está mudo. Aquela voz está muda. Pra sempre. Ele chora. Chora desesperadamente. Corre para o portão. Liga para a Emergência enquanto corre para tirar o carro. Ele sabe que é tarde demais...