sexta-feira, 7 de maio de 2010

Chama do sentimento!


Ontem caminhando sem saber ao certo onde ir...apenas caminhando, senti vontade de ir em um lugar onde fazia tempo que eu não ia, é um lugar muito charmoso que tem na av. Paulista...parei ali para tomar um capuccino e pensar...
Enquanto eu aguardava, comecei a voar com meus pensamentos...e me veio uma vontade louca de escrever tudo o que me passava pela cabeça..." Eu sou bem assim...rsrsrsrsr"
Eu pretendia apenas recolher da minha vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida.
Não sou poeta, apenas tento escrever o que vejo...o que sinto naquele momento...o que as pessoas me passam..!
Mas antes de começar a escrever, lanço um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Foi nesse momento que ao fundo do botequim"Assim eu chamo esse lugar :)" um casal acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos.
A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma menininha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido floridinho,
que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor...ela fica ali, quetinha, a espera de alguma coisa...com um jeitinho vergonhoso...timido.
Três seres humanos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, entre a sociedade.
Vejo, porém, que se preparam para algo mais que além de comer.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o pouco dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.
A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom.
Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali.
Ao meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro..."acho que era de laranja", apenas uma pequena fatia triangular.
A menininha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer? Penso eu!
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual.
A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera.
A filha aguarda também, atenta com os olhinhos brilhando. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo...E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas.
Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas...Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A menininha agarra finalmente o bolo com as duas mãozinhas e põe-se a comê-lo.
A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo...O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido, com vergonha - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria que fosse minha última crônica, meu último poema:

"Que fosse pura como esse sorriso..."

E assim eu sai dali com pressa, a chorar...e pensar...
Como ser feliz é simples...Simples como uma única fatia de bolo, um afago e um belo sorriso!

"Pq o amor não prospera em corações que se amedrontam com sombras."