sexta-feira, 24 de junho de 2011

ATRÁS DO BALCÃO.

Arte de Natalia Goncharova




O privilégio irrita. É esperar numa fila e um barbado que acabou de surgir ser chamado antes. Nossa paciência não é recompensada pela igualdade. Não há problema nenhum em reconhecer o trabalho e a importância de alguém, desde que eu não seja envolvido como moeda no pagamento.

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Mas o que mais irrita de verdade é perder o direito a ponto do direito do outro parecer um privilégio.

Rubem Braga foi pedir um ovo numa lanchonete paulista, o olhar armado com os talheres das sobrancelhas:

— Ovos fritos, por favor?
— Não, não temos ovo — o atendente respondeu para servir o sujeito ao lado com farta porção de omelete.

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A humilhação é maior do que a raiva e retira as palavras — talvez seja uma raiva fria e demore a ser engolida. O cronista não teve reação, não brigou, não revidou, guardou suas sobrancelhas no guardanapo do rosto e tomou as dores da rua.

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É um pouco assim no amor. Ou muito assim. O marido recusa ovos estrelados para esposa enquanto prepara omeletes para as demais freguesas.

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É terrível para uma mulher acompanhar seu companheiro feliz com os amigos do futebol, disposto e incansável para missões profissionais no final de semana; e totalmente ausente em casa. Não de presença, mas de espírito. E um espírito analfabeto que sequer escreve cartas do além.

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É ele pisar no capacho que fecha o rosto, é ele entrar na sala que resmunga. Não aceita carinhos, conversas, delongas. Sucumbe à mecânica da rotina: tomar banho, jantar, assistir televisão e dormir. Quase como um recruta em serviço militar, adotando uma série de tarefas físicas para não pensar.

Já porta afora saca gracinhas com as balconistas, diverte-se com o porteiro do prédio, ri sem parar ao telefone.

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A esposa conclui que vem sendo um monstro, responsável pela desgraça familiar. As mulheres sempre assumiram a culpa — os homens sempre recorreram ao ódio.

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Ela se ressente de não agradá-lo como no início. Vai ao terapeuta, inscreve-se em ginástica sexual, frequenta yoga, ocupa o dia inteiro criando alternativas para salvar o relacionamento.

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Não há ninguém para avisá-la que não deve sofrer pelos dois, seu marido é que deixa o melhor para o mundo e o pior para ela.

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O amor não é um privilégio, é um direito.

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Se não entendeu, por precaução, é bom lembrar ao marido que faltam ovos em casa.




(por Fabrício Carpinejar)

De lá-----> http://carpinejar.blogspot.com/2011/06/atras-do-balcao.html