quarta-feira, 11 de junho de 2014

Acordei querendo ser uma carta de amor.


Mandar cartas de amor é entrar sem pedir licença, sem precisar bater na porta ou marcar hora. 
É garantir atenção redobrada sem precisar fazer drama ou forjar um suicídio. 
Acordei querendo ser uma carta de amor. Que não pedisse nada porque amor que pede é só carência. Cartas de amor não cobram contas, não permitem a troca, não reclamam, não inventam desculpas.
Queria ser uma carta que apenas aproveitasse as tuas mãos me segurando e me sentisse salva com teu olhar me lendo a cada linha. Eu queria ser uma carta de amor e invadir teu silêncio. Te acordar de um sono manso e bagunçar teus sentidos. Te ver me olhando fixamente no papel como quem procura algo que tanto deseja.
Quando alguém lê uma carta de amor, o mundo deixa de girar e apenas a respiração continua. Quem escreve uma carta de amor, descreve-se. Se entrega aos braços do outro, sem volta. O coração não mente no caminho até o punho, que não mente também para a caneta no papel. Cartas de amor serão sempre sinceras. É o ultimo recurso de quem não sabe o que dizer. O último recurso de quem quer morar no outro. Na casa, no abrigo, no cansaço daquele a quem se entrega a carta. Escrever uma carta é admitir aquilo que se sente, aquilo que lateja e é maior do que se possa compreender ou esconder, sem sentir-se um fracassado, mas sentindo-se agradecido.
Cartas de amor serão sempre eternas. E mandamos nossas letras com o desejo de entrar no envelope e declamar a carta ao destinatário, ler com a própria voz. Confessar palavras feito um desesperado romântico que assume seu posto.
Quem escreve cartas de amor, assina contrato consigo de estar amando até que a morte o salve. Assina contrato de ser o maior tolo entre os tolos. Aceita a loucura de se estar apaixonado. Quem escreve uma carta de amor confirma que acabou ali a sua noção de tempo e espaço, e a partir daquele instante, toda e qualquer bobagem está permitida em nome do amor.
Meu amor, acordei querendo ser uma carta. Ser entregue em suas mãos, com seu endereço e com seu nome tatuados em meu corpo… Uma carta de amor, com minhas últimas palavras – aquelas que eu não soube dizer, e as mais sinceras confissões.

(A Sombra do Mar)

 By San


Foi na rapidez da tua entrega e na velocidade da tua despedida que passei a valorizar o instante. Hoje olho para o céu com mais amor do que antes, hoje abraço mais forte as pessoas, hoje me iludo menos e sofro de saudade em uma frequência bem menor. S2