segunda-feira, 19 de outubro de 2026

ESCASSO É O TEMPO DE QUEM NÃO SE RESPEITA!



Hoje, o espelho olhou-me de um jeito estranho. Como se, em uma espécie de simbiose telepática, quisesse saber por onde andavam os meus sonhos escondidos.

Respondi-lhe:

— Ora, espelho! Já não disponho do mesmo tempo. Por que me tomas por insensata?

Ele, com olhos de amoroso entendimento, mas sem qualquer piedade pela minha desculpa, respondeu-me cruamente:

— Faça a tua hora! Faça a tua hora!

Fiquei a pensar...

Se pudéssemos, de fato, fazer a nossa hora, não haveria atrasos, tampouco pressas. Haveria, sim, a ardente ânsia de realizar-se, de acontecer para si mesmo, de dar corpo àquilo que, há tanto tempo, insiste em florescer dentro de nós.

A realização pode tardar, mas nem sempre falha. Às vezes, o que falha é a intensidade do bem-estar que imaginávamos sentir ao alcançá-la. Esperamos tanto de nossas conquistas que, quando finalmente chegam, descobrimos que a felicidade não obedece, necessariamente, às nossas expectativas mais primitivas.

Os pássaros fazem a sua hora. Contudo, obedecem à própria lei instintiva, que os conduz para o norte quando o frio anuncia outros caminhos. Não se atrasam para ser quem são. Não se apressam para chegar antes de si mesmos. Simplesmente seguem o chamado que lhes habita o ser.

E nós? Quantas vezes contrariamos o nosso próprio chamado? Quantas vezes adiamos a vida em nome de obrigações, expectativas alheias e medos que nem sequer nos pertencem?

Escasso é o tempo de quem não se respeita!

Ao retornar ao lar, fui imediatamente ao encontro do espelho. Queria compartilhar com aquela parte de mim o acontecimento grandioso que, silenciosamente, se desenrolava em meu íntimo.

Chamei meu reflexo.

Mas já não encontrei os mesmos olhos.

Diante de mim, havia olhos imensos, brilhantes, profundos como o próprio mundo. Olhos que pareciam ter atravessado fronteiras invisíveis e regressado trazendo consigo uma verdade que antes desconheciam.

Senti-me só.

Mas, pela primeira vez, compreendi a necessidade particular da solidão. Há momentos em que precisamos nos afastar do ruído do mundo para escutar o que, dentro de nós, finalmente encontrou coragem para falar.

Algo de ruim havia partido de mim.

E, em silêncio, pedi-lhe:

— Não volte!

Eu precisava apenas de tempo. Um tempo de convalescença da alma, uma espécie de pós-cirurgia íntima.

Meus átomos, minhas partículas, meus pedaços e meu ser inteiro precisavam de tempo para assimilar a transformação, acomodar as novas verdades e gravar, em cada fragmento de mim, as informações que a experiência havia deixado.

Nem toda cura acontece quando a dor termina. Algumas começam justamente quando já não somos capazes de voltar a ser quem éramos.

Era preciso respeitar o intervalo entre o que eu havia sido e aquilo que começava a me tornar.

Escasso é o tempo de quem não se respeita!

Quando ampliamos o respeito por nós mesmos, algo se transforma. Muda o olhar, muda o reflexo, muda a maneira de habitar o mundo.

Nossos olhos revelam aquilo que cultivamos em nosso interior, e o nosso olhar ganha a forma do conhecimento que adquirimos, das dores que atravessamos e das verdades que, enfim, ousamos reconhecer.

Somos muito mais do que pensamos ser. Ainda assim, refletimos, a cada instante, aquilo que verdadeiramente somos.

Talvez a grande sabedoria não esteja em correr contra o tempo, tampouco em esperar que ele nos conceda uma hora perfeita.

Talvez esteja em aprender a reconhecer a nossa própria hora — aquela que não se mede pelos ponteiros, mas pela coragem de nos escutarmos, pela dignidade de nos escolhermos e pela delicadeza de respeitarmos os nossos próprios processos.

Porque há sonhos que não morreram: apenas aguardam que voltemos a olhar para eles.

Há versões de nós que não desapareceram: apenas esperam que tenhamos coragem de encontrá-las.

E há momentos em que a vida não nos pede pressa, nem explicações, nem promessas.

Pede apenas que não nos abandonemos.

Que façamos a nossa hora.

Que sejamos, enfim, o lugar onde a nossa própria alma possa repousar sem medo.

Escasso é o tempo de quem não se respeita!

Bay San 💞




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