Hoje, o espelho olhou-me de um jeito estranho. Como se, em uma espécie de simbiose telepática, quisesse saber por onde andavam os meus sonhos escondidos.
Respondi-lhe:
— Ora, espelho! Já não disponho do mesmo tempo. Por que me tomas por insensata?
Ele, com olhos de amoroso entendimento, mas sem qualquer piedade pela minha desculpa, respondeu-me cruamente:
— Faça a tua hora! Faça a tua hora!
Fiquei a pensar...
Se pudéssemos, de fato, fazer a nossa hora, não haveria atrasos, tampouco pressas. Haveria, sim, a ardente ânsia de realizar-se, de acontecer para si mesmo, de dar corpo àquilo que, há tanto tempo, insiste em florescer dentro de nós.
A realização pode tardar, mas nem sempre falha. Às vezes, o que falha é a intensidade do bem-estar que imaginávamos sentir ao alcançá-la. Esperamos tanto de nossas conquistas que, quando finalmente chegam, descobrimos que a felicidade não obedece, necessariamente, às nossas expectativas mais primitivas.
Os pássaros fazem a sua hora. Contudo, obedecem à própria lei instintiva, que os conduz para o norte quando o frio anuncia outros caminhos. Não se atrasam para ser quem são. Não se apressam para chegar antes de si mesmos. Simplesmente seguem o chamado que lhes habita o ser.
E nós? Quantas vezes contrariamos o nosso próprio chamado? Quantas vezes adiamos a vida em nome de obrigações, expectativas alheias e medos que nem sequer nos pertencem?
Escasso é o tempo de quem não se respeita!
Ao retornar ao lar, fui imediatamente ao encontro do espelho. Queria compartilhar com aquela parte de mim o acontecimento grandioso que, silenciosamente, se desenrolava em meu íntimo.
Chamei meu reflexo.
Mas já não encontrei os mesmos olhos.
Diante de mim, havia olhos imensos, brilhantes, profundos como o próprio mundo. Olhos que pareciam ter atravessado fronteiras invisíveis e regressado trazendo consigo uma verdade que antes desconheciam.
Senti-me só.
Mas, pela primeira vez, compreendi a necessidade particular da solidão. Há momentos em que precisamos nos afastar do ruído do mundo para escutar o que, dentro de nós, finalmente encontrou coragem para falar.
Algo de ruim havia partido de mim.
E, em silêncio, pedi-lhe:
— Não volte!
Eu precisava apenas de tempo. Um tempo de convalescença da alma, uma espécie de pós-cirurgia íntima.
Meus átomos, minhas partículas, meus pedaços e meu ser inteiro precisavam de tempo para assimilar a transformação, acomodar as novas verdades e gravar, em cada fragmento de mim, as informações que a experiência havia deixado.
Nem toda cura acontece quando a dor termina. Algumas começam justamente quando já não somos capazes de voltar a ser quem éramos.
Era preciso respeitar o intervalo entre o que eu havia sido e aquilo que começava a me tornar.
Escasso é o tempo de quem não se respeita!
Quando ampliamos o respeito por nós mesmos, algo se transforma. Muda o olhar, muda o reflexo, muda a maneira de habitar o mundo.
Nossos olhos revelam aquilo que cultivamos em nosso interior, e o nosso olhar ganha a forma do conhecimento que adquirimos, das dores que atravessamos e das verdades que, enfim, ousamos reconhecer.
Somos muito mais do que pensamos ser. Ainda assim, refletimos, a cada instante, aquilo que verdadeiramente somos.
Talvez a grande sabedoria não esteja em correr contra o tempo, tampouco em esperar que ele nos conceda uma hora perfeita.
Talvez esteja em aprender a reconhecer a nossa própria hora — aquela que não se mede pelos ponteiros, mas pela coragem de nos escutarmos, pela dignidade de nos escolhermos e pela delicadeza de respeitarmos os nossos próprios processos.
Porque há sonhos que não morreram: apenas aguardam que voltemos a olhar para eles.
Há versões de nós que não desapareceram: apenas esperam que tenhamos coragem de encontrá-las.
E há momentos em que a vida não nos pede pressa, nem explicações, nem promessas.
Pede apenas que não nos abandonemos.
Que façamos a nossa hora.
Que sejamos, enfim, o lugar onde a nossa própria alma possa repousar sem medo.
Escasso é o tempo de quem não se respeita!
Bay San 💞

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